Bolsonaro elevou a tensão política ao endossar acusações contra Câmara e Senado

O protagonismo assumido pelo Congresso, como a proposta de construção de uma reforma da Previdência que desfigura o projeto encaminhado pelo governo, é mais uma resposta à postura de confronto do presidente Jair Bolsonaro. Não bastando as falhas na articulação política, o chefe do Executivo federal insiste no embate com o parlamento. A amigos, enviou pelo WhatsApp, nesta sexta-feira, um texto de autoria do analista financeiro Paulo Portinho, candidato a vereador pelo Novo em 2016, que classifica o Brasil como “ingovernável fora dos conchavos”. O problema é que a publicação vazou e enfureceu lideranças partidárias influentes.
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Parlamentares associam a reprodução do texto ao pensamento de Bolsonaro, que, na quinta-feira, declarou que não abrirá mão dos “princípios fundamentais” que sempre defendeu de uma “nova forma de se relacionar com os poderes da República”.

COMPRA DE VOTOS – A publicação compartilhada comenta que, “desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal ‘presidencialismo de coalizão’, o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público”.

Ainda de acordo com o texto, o governo deixou clara a “ingovernabilidade fora dos conchavos” por se tratar de um “governo atípico”. “Bastaram cinco meses de um governo atípico, ‘sem jeito’ com o Congresso, e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda, sejam de direita”, escreveu Portinho, em publicação divulgada em 11 de maio numa rede social.

DIZ O PORTA-VOZ – A informação de que o presidente distribuiu o texto para contatos no celular foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. O porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, tentou amenizar o desconforto e informou, em nota atribuída a Bolsonaro, que o presidente vem colocando todo o esforço para governar o Brasil.

“Infelizmente, os desafios são inúmeros, e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que, no passado, se beneficiavam das relações pouco republicanas”, destacou. “Quero contar com a sociedade para, juntos, revertermos essa situação e colocarmos o país de volta ao trilho do futuro promissor.”

SEM DIÁLOGO – O confronto buscado por Bolsonaro mantém a coerência demonstrada por ele até o momento, mas não é uma estratégia inteligente para um presidente da República que precisa construir uma maioria e aprovar as pautas desejadas pelo governo, alertou o líder do PTB na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA).

“Sentar, conversar, dialogar e criar maioria não é conchavo. Simples assim. Eu acho que, nos 28 anos que Bolsonaro passou pelo Congresso, viu muita coisa ruim, mas também viu muita coisa boa. E ele sabe que se constrói maioria conversando”, ressaltou.

A postura de Bolsonaro é diferente daquela apresentada a presidentes nacionais de partidos do Centrão em 5 de abril, quando afirmou que “o que vale é a boa política”. “Não falamos de conchavo. É preciso parar de dizer que existe nova e velha política. Tudo é política. É a arte do convencimento, diálogo e conversa”, criticou Fernandes. “Agora, é preciso ter paciência para fazer isso e, se não tiver, não vai criar maioria nunca.”

ALIADOS? – O problema, agora, está no convencimento. Como Bolsonaro persevera no conflito, líderes partidários não conseguem ter previsibilidade de quando ele passará a vê-los como aliados, e não inimigos e afãs de conchavos. O líder do PR na Câmara, Wellington Roberto (PB), ressaltou que é o próprio governo que precisa dar explicações e parar de jogar a sociedade contra o Congresso por meio das redes sociais, numa queda de braço danosa para o país.

A resposta do Congresso ao governo em tempos de embate será a busca pelo protagonismo, admitiu Roberto. “Vamos traçar uma pauta e botar para votar aquilo que realmente interessa ao país. É preciso aprovar a reforma da Previdência, mas não vamos deixar de fazer ajustes. Temos que expurgar na Comissão Especial uma ‘fábrica de bananas’ que o governo jogou (no texto), ferindo a própria Constituição”, destacou.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A reação do Congresso é normal. Bolsonaro foi inábil ao endossar as acusações aos políticos, na hora em que mais precisa deles. Depois voltaremos ao assunto, que é decisivo neste delicado momento político. (C.N.)
Rodolfo Costa
Correio Braziliense


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